Há um tipo de cansaço que nasce da tentativa de obrigar a vida a acontecer exatamente como imaginamos.
Uma conversa termina, mas continuamos discutindo por dentro. Um projeto muda de direção, e passamos semanas defendendo o plano que perdeu o sentido. Alguém faz uma escolha diferente da nossa, e transformamos essa diferença numa questão pessoal.
Enquanto isso, o presente espera por uma atenção que continua ocupada tentando corrigir o que passou.
Tenho pensado que amadurecer exige aprender a escolher o que merece a nossa força. Há situações que pedem intervenção. Outras precisam de tempo. Algumas exigem que reconheçamos, com honestidade, os limites da nossa influência.
O Desafio da Persistência na Liderança
Para quem empreende, essa distinção é especialmente difícil. Aprendemos a abrir caminhos, enfrentar resistências e insistir quando poucos acreditam. Muitas das nossas conquistas nasceram dessa disposição. É compreensível que, depois de algum tempo, passemos a enxergar qualquer recuo como ameaça à própria identidade.
Mas uma capacidade que nos ajudou a chegar até aqui também precisa amadurecer.
A persistência perde qualidade quando deixamos de examinar o motivo pelo qual insistimos:
No negócio: Podemos continuar num projeto porque ele faz sentido ou porque admitir o contrário feriria o nosso orgulho.
Nas conversas: Podemos prolongar uma discussão por responsabilidade ou pelo desconforto de não dar a última palavra.
Por fora, os gestos se parecem. Por dentro, constroem destinos diferentes.
Uma pergunta me parece necessária: quanto das coisas que sustentamos ainda merece ser sustentado?
A Falta de Espaço e o Cansaço Silencioso
Essa pergunta exige espaço — e espaço é justamente o que costumamos retirar primeiro da vida.
Preenchemos a agenda, os intervalos, o trajeto, a refeição. Uma reunião termina e outra começa antes que tenhamos compreendido o que acabou de ser dito. Levamos as urgências para casa e estamos diante de quem amamos ainda respondendo, mentalmente, a alguém que ficou no trabalho.
Depois nos perguntamos por que tudo parece distante.
A presença precisa de disponibilidade. Ela aparece quando conseguimos:
Escutar uma resposta sem preparar a próxima pergunta;
Participar de uma refeição sem desejar que termine;
Caminhar sem converter o caminho em mais uma oportunidade de resolver assuntos.
O corpo também participa dessa conversa. Os ombros permanecem tensos depois que a reunião acaba; a mandíbula continua apertada diante de um problema que só poderá ser tratado amanhã. Às vezes, encerramos o expediente sem permitir que o expediente termine dentro de nós.
Vale perceber esses sinais. Existe uma pessoa sustentando todos os nossos projetos, e ela também precisa de cuidado.
A Cultura que Lideramos
Quem lidera deveria prestar atenção nisso, inclusive pelo que ensina. Uma equipe observa o modo como seu líder trabalha, reage, descansa e reconhece limites. Se ele transforma o próprio esgotamento em motivo de orgulho, pode acabar fazendo do cansaço uma exigência silenciosa para todos.
A cultura se forma também por aquilo que as pessoas sentem que precisam sacrificar para pertencer.
| Ambiente Exaustivo | Cultura de Sustentabilidade |
|---|---|
| O esgotamento é exibido como troféu e prova de dedicação. | A exigência vem acompanhada de condições para realização. |
| O erro é motivo de constrangimento ou humilhação. | O erro é corrigido com aprendizado e responsabilidade. |
| O foco está no que falta para a perfeição inalcançável. | Reconhece-se o valor do avanço sem ignorar o que precisa melhorar. |
O Valor do Avanço Discreto e Continuo
A busca pela perfeição pode nos tornar incapazes de reconhecer o valor do que já existe. A loja abriu, mas só enxergamos o acabamento que faltou. A equipe avançou, mas falamos apenas da meta que ficou distante. Um filho amadureceu, mas nossa atenção continua presa ao que ele ainda não sabe fazer.
O que falta merece trabalho.
O que cresceu merece ser visto.
Nem sempre precisamos reorganizar a vida inteira. Podemos começar cumprindo um acordo que costumamos adiar, ouvindo com mais atenção ou corrigindo um processo que desgasta as pessoas todos os dias.
O pequeno avanço tem uma exigência própria: voltar amanhã e cuidar dele outra vez.
Talvez essa seja uma das disciplinas mais difíceis para quem se acostumou ao entusiasmo dos grandes começos: permanecer atento depois que a novidade passa, melhorar sem plateia e sustentar um cuidado que não rende anúncio, mas transforma a experiência de quem está perto.
Conclusão
Ainda haverá dias de pressão, escolhas dolorosas e períodos de esforço intenso. A questão é perceber quando a dureza de uma fase começa a se transformar no nosso modo permanente de existir.
Quero construir coisas que durem. E, quanto mais penso nisso, mais entendo que preciso cuidar da maneira como atravesso a construção.
Porque o futuro que desejo também está sendo ensinado pelo modo como vivo hoje.
— Edson José Bandeira Braga Filho